Quando entrei na empresa onde trabalho atualmente, podíamos nos considerar pequenos, visto que éramos aproximadamente 100 pessoas distribuídas em dois andares e meio. Hoje a empresa cresceu e além dos 10 andares que ocupamos em um bem localizado prédio no centro do Rio, temos escritórios em São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador e Manaus. O problema é que junto com o crescimento da empresa, veio o crescimento da burocracia digital e da padronização cega das estações de trabalho. Vou explicar.
Quando recebi meu primeiro computador, eu era o administrador da máquina e tinha acesso total e poderia fazê-lo de gato e sapato. Meu desktop era totalmente customizado para parecer um Mac e instalei o Grub para uma (desnecessária) instalação do Fedora. Fiz tudo isso sem precisar pedir ou me justificar. Instalar qualquer aplicativo era somente uma questão de querer. Faltou memória? Grita com o carinha do suporte que ele te arruma uns pentes bacanas em troca de duas latas de cerveja.
Mas as coisas mudaram. Hoje, ao chegar no escritório, me deparo com algo que considero um ultraje: papeis-de-parede e descansos de tela padronizados em todos os computadores. Uma espécie de socialismo digital onde Fidel é o gerente da rede e os Chevrolet 54 são os nossos HP’s e Dell’s. Absolutamente revoltante. Deve ser uma retaliação à renúncia de Fidel. Só pode.
Mas é óbvio que eu não poderia deixar barato. Juntei a tropa e me preparei para invadir a Baía dos Porcos. Lá, como eu sou uma espécie de paladino da desobediência civil digital, logo tratei de criar um script para reverter a situação. Com um pouco de inventividade, BSOD’s e Google, montei um script camarada para restaurar meu papel de parede.
Em tempo: como papel de parede, seguindo a sugestão do Guia dos Mochileiros da Galáxia, tenho um fundo branco com letras garrafais em vermelho que constantemente me dizem “Don’t Panic”. Muito útil quando se trabalha em contato com clientes.
Mas ainda sobra a questão fundamental sobre o que, de fato, é válido em uma empresa.
Quando eu era criança, sempre reclamei de usar uniformes na escola. Por que diabos eu precisava me vestir igual à todo mundo da sala? Até que no segundo grau foi para uma escola onde não havia uniformes e entendi perfeitamente bem a função: é muito complicado prestar atenção na aula quando aquela sua colega gata está usando uma mini-saia ligeramente menos decotada do que a que a Chun Li usava e deixava a molecada louca quando fazia aquele chute com uma rodada de pernas.
Quando a empresa é pequena, fica fácil de controlar o que cada um está fazendo. Mas e quando o tamanho impede tal coisa? Colocar inspetores em cada andar monitorando qual papel de parede é usado por cada um não é nem de perto uma solução que Stalin usaria. Forçar o papel de parede também não… Acontece que não existe certo ou errado nessa brincadeira e o bom senso tem que falar mais alto na hora de se tomar uma decisão dessas, pois por um lado a liberação pode levar à anarquia. Por outro, o bloqueio leva à indiginação.
Voltemos às réguas de cálculo e ábacos. O máximo de customização que se conseguia neles eram adesivos da Hello Kitty.
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